Início > Relações Sino-brasileiras
Cooperação sino-brasileira na reconstrução de estação antártica é destaque na segunda década do BRICS
2017/09/13

Rio de Janeiro, 11 set (Xinhua) -- Entre 3 e 5 de setembro, os líderes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul reuniram-se na cidade chinesa de Xiamen para realizar a 9ª Cúpula do BRICS. O grupo, que entra agora em sua segunda década de existência, contribui com metade do crescimento econômico mundial.

A cerca de 800 quilômetros a nordeste de Xiamen está Shanghai, cidade onde o ensaio de montagem da estação antártica Comandante Ferraz obteve a aprovação da Marinha do Brasil. A estação é um dos frutos da cooperação entre a China e o Brasil.

"ALGO A COMEMORAR"

A estação antártica Comandante Ferraz está localizada na Ilha Rei George, no arquipélago Shetland do Sul. Ela foi inaugurada em 1984, mas foi quase totalmente destruída por um incêndio em 2012.

Para reconstruí-la, a Marinha brasileira realizou uma licitação internacional em 2015, no qual a China National Electronics Import & Export Corp (CEIEC) venceu com uma oferta de US$ 99,6 milhões.

De acordo com Cao Hong, gerente do projeto CEIEC Ferraz, a produção de todos os módulos pré-fabricados entrou na fase final, devendo chegar no início de novembro na ilha Rei George, onde a montagem será concluída em março do próximo ano.

Para Zhang Yi, diretor do Centro de Pesquisa Polar da Universidade Tsinghua, a cooperação entre a China e o Brasil na reconstrução da estação Comandante Ferraz é "algo inevitável".

Zhang lembra que a China estabeleceu em 2008 sua terceira estação de pesquisa científica na Antártida, a de Kunlun, especificamente no Dome A, o pico mais alto do continente congelado, sendo a primeira pesquisa da China no interior da Antártida. Na construção de Kunlun, a China usou pela primeira vez a modalidade construtiva mais inovadora naquela época, montando os módulos pré-fabricados dentro da estrutura de aço, construída diretamente no chamado "sexto continente do planeta".

Desta forma, os construtores conseguiram economizar tempo na montagem, algo importante tendo em conta as dificuldades logísticas causadas pelos eventos climáticos extremos na Antártida e as severas restrições ambientais. A experiência da China na construção das suas quatro bases de pesquisa na Antártida despertou o interesse por cooperação por parte dos países da América do Sul. Desta vez, a construção da estação Ferraz adotará a mesma modalidade pré-fabricada que a de Kunlun.

"PRECISÃO NA CONSTRUÇÃO"

A estação Ferraz está localizada perto das correntes de vento do oeste, que sopram com força por pelo menos seis meses do ano. Em novembro, quando os trabalhadores chineses começam a montagem na Ilha Rei George, a neve ainda tinha entre dois e três metros de espessura.

"Construir uma estação de pesquisa antártica com alguns milhares de metros quadrados é muito mais difícil do que levantar um prédio de 100 mil metros quadrados na China", disse Wei Wenliang.

Wei, pesquisador sênior da Administração Estatal de Oceanografia da China, foi 17 vezes à Antártida, dos quais sete como líder das equipes chinesas de expedição antártica.

"A construção para o Brasil é um projeto de grande valor. Eles nos entregam apenas um avião, e conseguimos realizar um trabalho ambicioso aqui na Antártida. Os materiais, o equipamento, a logística, a organização do terreno, todo o processo é de idealização chinesa", observou Wei.

De acordo com Rui Furtado, diretor executivo da AFA Consult, uma empresa portuguesa especializada em design de estruturas, equipamentos e co-designer da estação de Ferraz, o projeto da estação brasileira é tão delicado quanto a fabricação de relógios suíços.

"Todos os componentes e sistemas devem ser construídos com um alto nível de precisão para funcionar harmoniosamente e sem problemas", explicou.

Furtado disse que, a cada ano, há apenas um intervalo de quatro meses para a construção na Antártida, dessa forma todo o tempo disponível deve ser dedicado à montagem, e tudo muito bem planejado e executado.

Para garantir que a missão seja 100% bem-sucedida, as empresas chinesas fabricam e constroem tudo de forma muito precisa, como se estivessem montando relógios. "A CEIEC fez um ótimo trabalho", enfatizou.

De acordo com Cao, os requisitos para a reconstrução não são o nivelamento das estruturas de aço, mas a precisão mecânica do processamento, razão pela qual as empresas chinesas aplicaram tecnologias avançadas de construção totalmente pré-fabricadas, além da modelagem de informações de construção (BIM), com um design tridimensional.

"INCRÍVEL CAPACIDADE PRODUTIVA"

No local de montagem de contêineres, na cidade chinesa oriental de Yangzhou, Huang Bihe, engenheiro da empresa CIMC Yangzhou Tonglee Reefer Container, explicou à Xinhua que a tarefa de montagem é muito complicada.

"O espaço mais complexo é um laboratório de projeção de cerca de 45 metros quadrados com três funções, onde há um aquário para coletar e classificar as amostras. É quase impossível fornecer o número exato de cabos e tubos", afirmou ele.

Ao comentar sobre a capacidade produtiva das empresas chinesas, a consultora brasileira de projetos, Marta Krafta, repetiu várias vezes a palavra "incrível".

"Os chineses são muito trabalhadores e a capacidade produtiva das empresas chinesas é incrível, em todos os aspectos, como agilidade, controle de qualidade e disposição para atender às exigências brasileiras", explicou ela.

De acordo com Krafta, uma das maiores preocupações da Marinha do Brasil é a possibilidade de incêndio. As empresas chinesas tiveram dificuldade em encontrar uma solução para minimizar essa possibilidade.

De acordo com Wei, após mais de 30 anos de pesquisa científica na Antártida, a China tornou-se um dos líderes mundiais na região em pesquisa, administração, logística e construção, e a nova tarefa será desenvolver novos padrões de marketing em projetos antárticos.

"À medida que os esforços de pesquisa científica aumentam rapidamente, será necessário buscar um responsável para se encarregar da construção e manutenção das estações antárticas, como a CEIEC está fazendo com a estação brasileira", informou ele. Wei enfatizou a importância da cooperação internacional, e da comunicação entre diferentes idiomas e culturas, uma experiência que pode ser replicada na próxima construção de estações chinesas e estrangeiras, como um novo símbolo da cooperação Sul-Sul.

O supervisor do projeto, o capitão costarriquenho José Costa dos Santos, também elogiou a cooperação e a confiança entre os dois membros do BRICS, que, a seu ver, estabeleceram uma boa base para a futura cooperação bilateral.

"Ao aproveitar nossas próprias experiências de pesquisa e logística, o Brasil e a China devem avaliar a possibilidade de mais intercâmbios e trabalhar em conjunto na pesquisa científica e tecnológica na Antártida", concluiu.

Suggest to a friend   
Print